ESPECIAL: PAULO FONTELES SEM PONTO FINAL
Este livro-reportagem de Ismael Machado é um reencontro vivo e impactante com a memória desse exemplar militante comunista, exultante e abnegado defensor do povo pobre da vasta região amazônica, estendida ao estado do Pará. A obra descreve com precisão como o apropriadamente qualificado “advogado do mato” foi morto pela execução de um “crime bem planejado”, realizado por profissionais que vivem desse macabro mister, sustentados mediante paga de manda-chuvas do latifúndio, verdadeiros donos do poder na região.
Renato Rabelo
Paulo Emnmanuel
Toda solidariedade ao Deputado Carlos Bordalo
As agressões do deputado “matador de pobres”, Eder Mauro, ao presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Pará, Carlos Bordalo, dentro das dependências do parlamento paraense é mais um episódio da violência simbólica e intimidação sem precedentes contra defensores de direitos humanos na Amazônia paraense.
Pau D’Arco: Presidente da Comissão de Direitos Humanos é agredido por deputado federal dentro da Alepa
Diante do clima hostil, o deputado Carlos Bordalo informou à deputada federal Elcione Barbalho (PMDB), que estava presidindo a reunião, que iria se retirar e que estaria à disposição para prestar as informações solicitadas em seu gabinete. Neste momento, Eder Mauro começou a gritar, chamando o deputado Bordalo de “bandido” e ”covarde”, entre outras agressões verbais, e partiu para a agressão física, chegando a empurrar o deputado Bordalo, como foi registrado em vídeo pelos presentes.
Estudo diz que ataques a defensores de direitos humanos atingiram nível crítico
No ano passado, 281 defensores de direitos humanos foram mortos em pelo menos 22 países. Os dados são da organização não governamental (ONG) Front Line Defenders e estão no estudo Defensores e defensoras dos direitos humanos sob ameaça – a redução do espaço para a sociedade civil, divulgado hoje (15) pela Anistia Internacional. Em 2015, foram 156 mortes.
Chacina em Pau D’Arco tem as mesmas raízes do massacre de Carajás
Força policial sempre esteve aliada ao latifúndio no sul e no sudeste da Pará, diz advogado da CPT
Paulo Fonteles Filho: Se algo acontecer a mim, familiares ou amigos, o responsável será o governador Simão Jatene
Paulo Fonteles Filho (à esquerda): Os mesmos coronéis fascistas que hoje empunham mais violência são os mesmos que comemoraram as mortes de Paulo Fonteles, Padre Josimo, Gabriel Pimenta e João Canuto
Chacina de Pau D´arco: Relatório da Comissão de Direitos Humanos da Alepa
RELATÓRIO DE ACOMPANHAMENTO DE OPERAÇÃO POLICIAL DE CUMPRIMENTO DE MANDATOS DE BUSCA E APREENSÃO E PRISÃO PREVENTIVA QUE RESULTOU NA MORTE DE 10 OCUPANTES DA FAZENDA SANTA LÚCIA NO MUNICÍPIO DE PAU D’ARCO NA REGIÃO SUL DO PARÁ.
Vítima de chacina no Pará foi morta com tiros no coração à queima-roupa, diz relatório
Relatório da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Pará aponta que Hércules Santos de Oliveira foi morto com características de execução.

O livro de uma vida
Foram oito dias percorrendo as rodovias do sul e sudeste do Pará. Marabá, São Domingos do Araguaia, São Geraldo do Araguaia, Conceição do Araguaia, Rio Maria e Xinguara. Eu, Paulo Fonteles Filho e o motorista Rubens. A ideia era encontrar pessoas que conviveram diretamente com Paulo Fonteles, no período em que ele era conhecido como ‘advogado do mato’ por defender posseiros e lavradores contra desmandos do latifúndio em plena ditadura militar.
Estar nessa região não é exatamente uma novidade, mas a cada vez há coisas a levar como aprendizado, experiência, exemplo. A missão nossa era coletar depoimentos para o livro que estou escrevendo sobre a vida de Paulo Fonteles, cujo assassinato completa 30 anos em junho próximo. Faz parte das atividades que o Instituto que leva o nome do ex-deputado está preparando para lembrar Fonteles.
É um privilégio e uma responsabilidade fazer parte disso. Nos caminhos encontramos com personagens admiráveis como Davi dos Perdidos, Luzia Canuto, Zé Polícia, Zé da Paula, Edna dos Perdidos, Maria Oneide, João de Deus. Tantos que ajudaram a construir essa história heroica, mas repleta de sangue dessa parte relegada do Brasil.
Descubro com mais clareza que os camponeses reagiram à altura também aos ataques de pistoleiros. A resistência armada foi real e significou mais uma das tantas guerras perdidas do Brasil, como bem relatou algumas o jornalista Leonencio Nossa, em uma bonita série de reportagens anos atrás.
Numa dessas noites, regada a carne de carneiro na casa de Zé da Paula, eu escutava, embevecido, as histórias desses homens e mulheres já na casa dos 70 anos, lembrando as histórias dos acampamentos que se tornaram hoje assentamentos produtivos, tantos anos depois. Zé da Paula e Valdemir contando como tiveram que sair da região e passar alguns anos fora por conta de ameaças sofridas. Entre risos, cervejas, cachaça, churrasco, as memórias afloravam. Eu olhava algumas fotos antigas, como a da musa de todos, Lu, uma jovem bonita, filha de uma das famílias mais ricas de Minas Gerais e com espírito comunista. Lu criou um bar de MPB numa Conceição do Araguaia que efervescia. Olho a foto dela na beira do rio sorrindo e depois olho para uma foto dela atual, com quase 80 anos, convivendo com o mal de Parkinson.
Comparar essas duas fotos foi para mim um dos momentos mais tocantes dessa viagem, pois me fez pensar em trajetórias de vida, principalmente quando a vida se torna algo mais rico do que qualquer outra experiência.
Estar com essas pessoas, ouvir o que elas têm pra dizer, é uma experiência que gostaria muito que os que pensam nesse muro de ódio e preconceito a dividir o Brasil, pudessem ter a oportunidade de presenciar.
A história foi vivida por essas pessoas. Algumas não sobreviveram para contá-la, mas os que resistiram podem dizer como Davi dos Perdidos. “Eu venci, pois diziam que eu ia morrer de morte matada. Não conseguiram”.
BELÉM





