vermox-Alkohol

Por Tainá Marajoara.

Bem, sobre o Centro Global não vou me pronunciar. Há 4 anos comunicamos sobre todo o processo de entreguismo que estes projetos promovem na Amazônia e no Brasil. Mas tô adorando ver os artistas e intelectuais saírem da toca.

Tomara que tenham se lembrado que também comem e que os seus impostos além de financiar toda a destruição da mineração agora pagará a sua voluntária recolonização. E não me venham dizer que ninguém sabia, nós o fizemos veementemente e sempre fomos desqualificados assim como seremos após esse post…

Estamos acostumados, a luta segue, e quem tem valores e princípios a vida guarda.

Por vezes denunciamos sobre a liquidação da biodiversidade por espelhos em pleno século XXI. Será que é impossível enxergar que não somos nada diante dos olhos desses salvadores? Se fôssemos, nenhum espaço de Arte e Cultura seria despejado para dar lugar a interesses greenwashing. Por que não fazem no Masp? Por que não o fizeram no MAM? Por que não o fizeram no MAR ?

Porque ainda vêem o nortista como povo dócil a ser civilizado, quintal do país livre para apropriação. Te toca, nortista! Por que querem salvar a Amazônia se a Mata Atlântica agoniza em crises agudas? Por que não fazem as ações de sustentabilidade nas terras griladas do sudeste? Ah, sim, lá estão os usineiros e não tem o marketing Amazônia. Lá vai o norte ser sempre fornecedor de matéria prima… apesar de ser fornecedor de conhecimento, só enxergam o ingrediente. Nunca o mestre ou mestra chega no prato. Afinal, estão divulgando nossa cultura… basta!

Quem precisa de divulgação é papel higiênico que tem que disputar mercado e prateleira. Nós somos Amazônia, necessitamos ser autônomos sobre nosso território e guardiãos de nossos conhecimentos e tecnologias. Quanto conhecimento e tecnologias autóctones tem em um manejo indígena? Ah, sim, se ainda não sabem, o plano também passa pela exploração de subsolo e terra preta. (Entenda-se mais mineração e mais monocultura).

Juro que também não me causa estranhamento, afinal, nosso modelo produtivo não mudou. Continuamos na plantation e no trabalho escravo. Em 2016, com um agravante, plantation envenenada e pessoas tão domesticadas pela TV e pessoalismo midiático que em sua esmagadora maioria não consegue refletir sobre o que come.

Eis o cerne da questão. Se não sabes o que comes, não sabes quantos indígenas foram mortos para os projetos de Academias Sustentáveis de Carne, Boi do Xingu e etc… acontecerem. Se não sabes o que comes, engoles e brada como um belo bobo da corte (afinal o Pará ainda é colônia e faz questão de manter assim, vide que está financiando sua recolonização voluntariamente e os ditos artistas e intelectuais clamam pelo uso do espaço sem questionar o projeto entreguista em curso) enquanto envenena seu filho compartilhando que “come cultura”.

E algo me intriga mais que tudo: Por que na terra que tem 15mil anos de história da alimentação, e é também a terra das tacacazeiras, cozinheiras do Ver-o-Peso, das fazedeiras de beijus, farinhas e toda a sorte dos preparos contemporâneos e ancestrais da cozinha paraense, os Chefs e as Chefs locais e as demais mulheres se curvam diante dessa ação estapafúrdia e engolem sem mastigar que um homem forasteiro, com discurso jesuíta diz na cara de todos que ele vem renovar, divulgar e ensinar os paraenses a cozinhar e este é considerado o seu embaixador? Qual foi o chá de tamaquaré que o paraense tomou?

Porque toda a população paraense terá que custear com seus impostos a exploração da biodiversidade por empresas particulares? Ninguém aprendeu com as mineradoras e os ambientalistas Fundo Vale?

Quais as garantias do cumprimento de direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais quando os envolvidos são garotos propaganda do Agronegócio que é quem mais devasta a Amazônia e promove conflitos no campo e floresta? O Pará ainda vai aplaudir quem o mata e condecorará posteriormente com nomes de rua, escolas e feriados?

Por que um órgão de mineração abrigará demandas do Centro Global de Gastronomia?

Se é da Amazônia porque é Global? A internacionalização da Amazônia já foi concretizada e como paraenses saberemos por Decreto?

É paraense, será que tás deixando de ser papa-chibé pra ser comedor de farinha com agrotóxicos e açaí transgênico?

Que nossas águas e samaúmas nos protejam.

Fonte: https://www.facebook.com/taina.khalarje/posts/1009616172420793