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Por Paulo Fonteles Filho*

As ameaças contra a integridade física do companheiro e querido amigo deputado Carlos Bordalo são inaceitáveis, uma luz vermelha que acende diante de tempos tão estranhos, de golpe na democracia e vertiginosa ascensão de forças inimigas das liberdades públicas e dos direitos humanos.

O atual presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Pará é um militante de longa data das lutas libertárias na Amazônia, fundador do Partido dos Trabalhadores e é portador de um histórico fincado nas organizações do povo como agitador e organizador da esperança, tão fugidia quando os opressores grassam e os baús do medo se abrem cheios de promessas de bala e covardia.

Não, não devemos permitir que verdugos – que nós sabemos quem são – silenciem tão potente voz.

Nós, que sabemos o que é a orfandade e a morte anunciada, haveremos de nos insurgir.

O fato é que o Pará assiste atônito a total perda de controle sobre a segurança pública e a explosão insana da violência e de grupos paramilitares, de milicianos, que atuam pomposamente – com requintes de perversão – contra as periferias, com poderes maiores que o de Deus, ceifando vidas de jovens negros nas baixadas miseráveis da capital dos paraenses. Tais grupos não respeitam ninguém, nem polícia, nem o judiciário vacilante, nem o governador.

A própria posição do governo do Estado é de reconhecimento da existência desses grupos sanguinolentos, mas, ao mesmo tempo, é acuado por patinar nas medidas de enfrentamento, sempre pálidas e sem efeito. Porque, diante do descalabro, a Força Nacional de Segurança até hoje não deu o ar de sua graça? Porque a Polícia Federal está tão apática, vendo a banda da zombaria dos brutos tocar? Até quando o Ministério Público tolerará programas sensacionalistas, cujo efeito prático é o estímulo ao banditismo desmedido?

O que causa espécie é a naturalização do barbarismo e a total submissão aos toques de recolher e aos homens de capuz, com seus possantes pretos ou prata. Manchetes pútridas das colunas policiais, sempre recortadas por estilhaços de pontoquarenta ganham as narrativas e o imaginário social, impondo medo e silêncio. E tudo isso num contexto de chacinas, quando satanás passeia em noites sem lua.

O fato é que vivemos numa quadra histórica adversa, onde a noção de que a humanidade é uma família – assim nos ensina a Carta de 1948 – está sendo pisoteada pelas botas da crescente fascistização, carro-chefe do racismo, da misoginia, da homofobia, do anticomunismo e do ódio ao PT e demais forças populares e consequentes da sociedade brasileira.

Aqui, em terras tupiniquins, defensores de direitos humanos estão em desamparo, vivem sob o signo de perseguições, ameaças e risco da morte precoce. Os programas de proteção a defensores foram totalmente esvaziados e Temer precisa ser denunciado em tribunais internacionais porque o golpe em curso foi e é o principal responsável pelo assustador crescimento das violações de direitos no país. O neoliberalismo atinge o povo e quem o defende, sempre.

O Pará dos crimes políticos – que lembra os martírios de meu pai, advogado Paulo Fonteles e o deputado João Batista – não pode prevalecer diante de uma ameaça que não é apenas contra o deputado Carlos Bordalo, mas, sobretudo, contra todos nós, amantes das belezas da vida, da liberdade plena e da democracia, que precisa ser restaurada.

A vida de Carlos Bordalo, sua voz rebelde e consequente não poderá ser calada por cães e suas matilhas beligerantes. Se algo lhe ocorrer a responsabilidade deve ser imputada ao governador Simão Jatene e ao usurpador Temer.

Nós, que só temos uns aos outros, devemos exercer a solidariedade militante, capaz de transformar noites sombrias em manhãs plenas, de pão e amizade.

Vida longa camará Carlos Bordalo!

*Paulo Fonteles Filho é presidente do Instituto Paulo Fonteles de Direitos Humanos.