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Maria Fernanda Ribeiro, especial para a Amazônia Real

São necessários apenas 45 minutos de barco após deixar a caótica e efervescente Belém, capital do Pará, para chegar até a paradisíaca Ilha de Cotijuba e se deparar com seus 15 quilômetros de praias exuberantes banhadas pelas águas das baías do Marajó e do Guajará. Do pequeno porto, avista-se outro cartão postal: as ruínas de uma antiga prisão utilizada durante o período da ditadura militar.

A população da Ilha de Cotijuba é de cerca de oito mil habitantes, com atividades basicamente rurais. Alguns dizem que tem mais de oito mil, que a ilha cresceu muito nos últimos anos, e talvez já tenha até mais de dez mil habitantes por lá. Outros afirmaram ser muito menos. “Aqui não passa de mil pessoas”, alerta um moto taxista, que cobra R$ 3 para levar passageiros aos pontos mais próximos.

Na ilha não entra carro e toda a locomoção é feita via motocicletas, bicicletas, de charrete ou de bonde, que são veículos puxados por tratores. À pé também dá para chegar em alguns locais, mas a alta temperatura pode atrapalhar os planos de sair caminhando por aí.

A beleza exuberante não é a única referência de Cotijuba, batizada com esse nome pelos seus primeiros habitantes, o povo indígena Tupinambá. Não há entre os moradores quem não conheça o protagonismo do Movimento de Mulheres das Ilhas de Belém (MMIB) no trabalho de empoderamento por meio de uma economia feminista que possibilite completa visibilidade e autonomia às mulheres da ilha, mas que não deixa de fora os homens que também queiram se integrar.

“O movimento vem para orientar as mulheres para que possam enxergar qual o espaço delas e para que esse lugar seja ocupado. É para nos impormos como mulher e não baixar a cabeça para o machismo”, disse Aldilene Carvalho Lemes, associada ao MMIB há um ano.

A Ilha de Cotijuba é banhada pelas águas das baías do Marajó e do Guajará (Foto: Maria Fernanda Ribeiro/Amazônia Real)

Produção e venda de priprioca (uma erva aromática e medicinal com perfume amadeirado) para a empresa Natura, confecção de biojoias e agora o Turismo de Base Comunitária (TBC) são algumas das frentes de atuação dessas mulheres para promover o desenvolvimento social e econômico da região.

 “Com o MMIB cresci como pessoa e como profissional. Hoje posso dizer que sou artesã”, disse Solange Santos Alves, 42, que confecciona biojoias com sementes encontradas em sua maioria na própria ilha.

Cilene de Carvalho Fernandes é sócia-fundadora do movimento e trabalha com a priprioca desde 2002. “O movimento mostra que a gente pode falar para os homens que nós somos iguais a eles e o que eles podem a gente também pode.” Ela explica que atualmente há seis famílias nesse projeto e que cada uma planta no seu próprio quintal. A entrega é feita uma vez por ano e funciona como uma poupança, pois o dinheiro só vem quando o produto chega até a Natura devidamente limpo e ensacado.

Dona Deca, 64, é uma dessas produtoras e pretende entregar no próximo ano uma tonelada da priprioca. Nos anos anteriores, com o dinheiro que recebeu, conseguiu reformar banheiro, concluir a estrutura de captação de água, comprar geladeira, guarda-roupa e cômodas. “Estou no MMIB há 14 anos. É a única entidade daqui que gera renda para as mulheres.”

Rubenita da Silva, que não revela a idade de jeito nenhum, é uma das mais novas associadas do MMIB e também integra o grupo que produz a priprioca. Ela, uma sobrevivente do massacre de Eldorado do Carajás, foi acolhida pela ilha e encontrou no trabalho com a terra a solução para os seus anseios e angústias.

“O MMIB é uma fonte que te empurra e com ele aprendi a ganhar dinheiro com o que eu já sabia fazer. Ocupar o tempo com a terra acalma minha ansiedade, como uma terapia ocupacional.” Nita, como é carinhosamente chamada, também integra o grupo de Turismo de Base Comunitária como condutora dos passeios. A casa dela também serve como hospedagem.

Sustentabilidade financeira

Mulheres transformam sonho em renda na ilha de Cotijuba (Foto: Maria Fernanda Ribeiro/Amazônia Real)

Dona Deca (Foto: Maria Fernanda Ribeiro/Amazônia Real)

As mulheres são convictas em dizer que sem o MMIB talvez elas estivessem só em casa cuidando dos filhos, mas o movimento proporcionou uma profissão e muitas, mesmo com a resistência de alguns homens, voltaram a estudar. Não raro há relatos de namorados e maridos que reclamavam que suas companheiras estavam deixando de cuidar da casa por passarem muito tempo no MMIB.

Com 18 anos de existência e 61 mulheres e 31 homens no quadro de associados, a reunião de fundação do MMIB, que é oriundo de uma associação de produtores rurais, foi feita embaixo de uma árvore com um projeto de produção de compotas já com o objetivo de levar autonomia financeira para as mulheres.

E hoje possuem sede própria, onde as moradoras da ilha pedem para fazer parte deste movimento de empoderamento, como a professora Fernanda Jaime, que já chegou em Cotijuba sabendo do trabalho desempenhado pelas mulheres do movimento. “Eu já sabia como elas transformam a vida das pessoas na ilha, que é um lugar totalmente negligenciado pelo poder público. O MMIB fortalece e conscientiza as pessoas.”

Sob a atual gestão de Maria Lídia Lopes dos Santos, 61 anos, também uma das fundadoras, os próximos anos terão como foco a sustentabilidade financeira e o Turismo de Base Comunitária é a grande aposta para que isso aconteça. Segundo Lídia, a falta de internet e a comunicação precária emperra a captação de recursos. “O TBC é uma grande esperança e todos os atrativos são liderados pelas mulheres.”

O Turismo de Base Comunitária é uma alternativa ao modelo de turismo convencional e que atende as necessidades de conservação dos modos de vida tradicionais e da biodiversidade de pequenas comunidades, além de estimular o desenvolvimento econômico local.

A Nita é a condutora e o turista também pode se hospedar na casa dela. Tem o restaurante da Leine em uma das melhores praias da ilha, a Vai-quem-quer. O camping da Nazaré para quem não dispensa uma barraca. A horta de orgânicos da Dona Deca. A plantação de priprioca da Cilene. A pousada da Lídia. A pousada da Adriana. Tudo isso faz parte dos pontos de visitação. Mas tem muito mais.

Como disse Rita Marley, uma fã do reggae que carrega suas cores todos os dias em algum adereço ou maquiagem e também nos elásticos do aparelho dentário “a Ilha de Cotijuba antes tinha uma prisão, mas agora é o MMIB que aprisiona a gente, mas uma prisão com liberdade. Se não fosse por ele, talvez nem estivesse mais aqui.”

As ruínas de uma prisão desativada (Foto: Maria Fernanda Ribeiro/Amazônia Real)

Foto: Maria Fernanda Ribeiro/Amazônia Real

FONTE: http://amazoniareal.com.br/mulheres-transformam-sonho-em-renda-na-ilha-de-cotijuba-no-para/