vermox y bebidas alcoholicas

Estávamos em plena viagem para colher depoimentos para o livro a respeito de Paulo Fonteles, o pai. Paulinho era o motor dessa empreitada. Como de hábito, sonhara em voz alta, empolgara-se e acabou envolvendo a todos no projeto. De pronto disse que eu seria a pessoa certa para dar cabo da missão. Entre envaidecido e consciente do peso da responsabilidade, abracei a história com um afinco digno de Paulinho Fonteles.

Paulinho não leu o livro.

Quando questionei o motivo, Paulinho foi simples. Não queria interferir em nada do que eu escrevesse. E também explicou que só iria ler o livro impresso, saído da gráfica. Paulinho tinha dessas coisas. Desde que nos conhecemos, há uns sete, oito anos atrás, se a memória não falha, estabelecemos uma relação de confiança mútua. Devo uma reportagem premiada- Os suruí e a Guerrilha do Araguaia- a uma sugestão de pauta dele.

Em outra ocasião, depois de várias cervejas, Paulinho, já embebido de emoções, revelou ter consciência de que às vezes era visto quase como um lunático idealista. “Tu acreditou em mim desde sempre”, disse, voz embargada. Como de hábito repetiu a frase umas três vezes.

Paulinho era atacado pelo calor. O suor escorria o tempo todo no corpo agitado. Chegava lá em casa e a primeira coisa que perguntava era se podia tirar a camisa, sob tímidos protestos de Angelina, a companheira. Depois assuntava se havia café. E muitas vezes, entre cervejas e galinha no tucupi, fazia planos. Não tinha como deixa-lo quieto. Andava ao redor da mesa, roía a unha e voltava a repetir a mesma frase anterior.

E pedia para tocar rock dos anos 80. Como eu, achava ‘Juvenília’, do RPM, uma baita canção politico-existencial.

Eu me exasperava muitas vezes com a desorganização organizada do Paulo. Podia perder horários por ter dormido a mais. Quando viajamos por quase dez dias lá pelo sul do Pará, começou a reclamar da minha disciplina de horário. E eu, da falta de disciplina dele. Mas nada afetava o respeito mútuo. E o carinho maior ainda.

Paulinho se sentia à vontade em qualquer lugar. E isso era ótimo.

Dizia que não tinha maldade no coração. E era verdade. Abria um sorriso que me fazia dizer que ele era parecido com o garoto do filme ‘Minha vida de cachorro’. Ele concordava.

Era difícil não ver em Paulinho um dínamo de sonhos. Tinha um certo incômodo por não ter concluído um curso universitário. Dizia que iria voltar a estudar. Não sabia bem o que. Admirava os feitos de outras pessoas como se fossem dele. E de certa forma eram.

Em uma noite, no Bar do Rubão, confidenciou que carregava a sina do pai até no nome. Era como se precisasse honrar essa memória. E Paulinho o fez. Era difícil não amar o Paulinho. Podia nos tirar do sério, mas sempre voltava a nos cativar nos minutos seguintes.

Não tem como, olhando a chuva, que nem de longe é como a de Belém, imaginar o quanto vai ser difícil, toda vez que pisar na cidade, não encontrar Paulinho. Ir ao Instituto, trocar ideias e ouvi-lo dizer ‘bora ali fora fumar um cigarro’, interrompendo uma conversa no meio.

Paulinho era um amigo. Daqueles que você carrega por toda a vida. Mesmo quando a vida se vai. Meu mundo ficou menor. O mundo, aliás, ficou menor sem o Paulinho que, como eu, pisou a primeira vez no Mangueirão no dia em que o Paysandu venceu o Remo por 1 a 0, com gol de Zezinho, cobrando falta. O ano era 1982. Dia desses, na casa do irmão e parceiro Ronaldo Fonteles, vimos esse lance no Youtube e gritamos gol como se o momento, aquele, ainda estivesse congelado no tempo.

E o palavrão que ressoa na minha cabeça não sai garganta afora.

Meu amigo-irmão se foi e é o tempo que vai me fazer entender isso.

Só o tempo.

ismael

*Ismael Machado é jornalista, roteirista de cinema e escritor do livro “Paulo Fonteles sem ponto final”